Era no rabo da madrugada que Neném Martins fazia as suas andanças. Enquanto estava sozinho era muito Neném para andar serelepe, sem manqueiras e de olho para as quatro bandas. Se, porém, vinha algum andarilho, era aquele Neném contrito, pé em cima e outro em baixo, um coitado, enfim. E era de vozinha rouca e sofrida que respondia quando alguém o tal "tudo bem, sô Nenem?":
-Que nada, meu filho. Ando muito perrengue. Tô aproveitando o sereno da manhã para a minha coqueluche.
Mas a coqueluche do Neném piorava mesmo era pelas bandas da casa duma tal de Dona Polina, uma gordinha de nome falado e que ria muito quando o seu marido, um tal de Dedé Binguinha, começava a cantar,ao modo de Orlando Silva, a famosa canção "Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou e em nome Jesus um grande amor você jurou"...e era de gogó tremendinho que completava, ..."mas não cumpriu", fato que deixava as gorduras da sua mulher pulando de riso e ao que ela rebatia, com voz de Inezita Barroso, a musiquinha "Tá chegando a madrugada, oi, o sereno vem caindo... Hi hi hi!"
Neném, como sabemos, tossia de fazer dó do princípio da rua e só parava quando o remédio aparecia. Era só a janelinha do fundo abrir na casa de Polina, e lá ia o Neném, na ponta dos pés que nem neném novo, sem tosse, esfregando as mãos e sussurrando:
-"Tá no papo!".
Acontece que um filho de Polina, condoído pelas canções do pai e sem dó nenhuma das tosses do Neném resolveu, certa madrugada, curar de vez aquela coqueluche. Ficou atrás de uns pés de couve com um tijolo mal encarado na mão esquerda e cabo de machado na direita. Notou a janelinha abrir-se e deixar coar uma luzinha de vela, a tosse sumir e pisadozinho de leve e um esfregue-esfregue de mãos se aproximando. E, foi só aparecer o Neném, espigado que nem Rodolfo Valentino, para o tijolo e o pau de machado trabalharem. E era "tome, sem vergnha", era "ai, minha coqueluche", e era "que barulho é esse aí que não deixa a gente dormir" e era "tome mais, seu sem vergonha", e o Neném, de focinho comprido e cabeça amassada, pulou de cabrito uma cerca de quase dois metros, caindo em pezinho, em pezinho na rua, por onde passavam três bagunceiros que vinham da sinagoga, uns tais de Zé da Luz, Romeu e Juju, para quem o Neném falou com ar revoltadiço:
-São as tais coisas. Essa gente deve a gente e quando a gente vem cobrar, a gente ganha é tijolada. Gente ingrata, gente ingrata! Ai, minha coqueluche!
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