domingo, 9 de janeiro de 2011

(*) Vovô dizia que mulher da perna fina...

   Neguinha bucheira recebeu um coice tão horroroso na tábua do pescoço que, na mesma hora, tomou a bênção a um tal de Zé vitor, não somente porque ele era um crioulo lustroso, mas também porque pensou que estava no céu, fato esse que aborreceu Zé Vitor a ponto de o coitado chorar e falar para ela em tom respeitoso:
_"São Benedito, minha cara senhora é, com  licença do meu desaforo, é o rabinho da sua vovó!"
Mas o caso não parou por ali. Aliás, nem começou por ali, que Neguinha estava era pagando, segundo informou uma zangada mulherzinha apelidada de Lalada Corsino. A verdade era que, desde as sete horas, a bucheira ligou o rádio e fez via sacra nas paradas de todas as estações que, naqueles dias, badalavam a musiquinha "Mulher da Perna Fina", do enjoado do Ivon Cury, e a Lalada tinha o defeito de nascença de ter uma perna que nem sabiá borrão. E a Neguinha, não satisfeita ainda, abriu o berreiro na cantarola da musiquinha infame. Aí, Lalada resolveu dar o troco de língua e pôs em desfile coisas do arco da velha que a Neguinha vinha fazendo desde que virou mocinha e baixou âncora nos clubes da cidade, inclusive, um caso escabroso do tempo do lança-perfume, quando pegaram a indigitada num porre que só Deus dava na pracinha velha do cinema, a qual sem-vergonhista estava fantasiada de Eva e rodeada de dois marginais, um tal de João Piriri e outro apelidado de Joaquim Matola, e os três promoviam um carnaval particular, cantando aquel tal de "Eu não sou água prá me tratares assim", um despautério que acabou na delegacia, nas mãos dum tal Doutor Quirino que mal-mal botou mercúrio cromo nos dois frangões e dispensou curativismo particular e de portas fechadas para a "pobrezinha", a qual soltava gritinhos assim: -Ai, ai, doutor! Tá dodoizinho, doutor!Ai, ai, ai!
E foi que a bucheira Neguinha revelou para a vizinhança que, se chifre doesse, o marido Janjão da Lalada estaria comprando uma farmácia, pelo que o ofendido marido da Lalada jogou um penico cheio na horta da bucheira, e o marido da bucheira devolveu o desaforo fazendo necessidade num jornal e mandando o embrulho na parece da sala do desaforado, resultando outro bate boca e um pega na base do porrete, magueira de aguar horta e até um sapato velho que aterrisou no beiço de Lalada, tendo esta pegado uma acha de lenha e mirado na tábua do pescoço da bucheira, até que aconteceu o princípio desta história.
No remate, a polícia levou Lalada, o marido de Lalada, o marido de Neguinha e Neguinha, Zé Vitor e uma sarará chamada Gordura que o acessora como cobertor de orelha nas caladas da noite, um par de periquitos, um galo e respectivas cocotas, uma muleta, dois serrotes, seis vidrinhos do afamado Tintol Salomão, um rolinho de esparadrapo que o filho da Lalada tinha roubado para fazer carrinho de lata de sardinha, o respectivo carrinho e o respectivo menino, três cuecas samba-canção marca Zozó e que foram compradas no armazém do Sô Menjon para dar de presente ao marido de Neguinha, dois transeuntes que nada tinham com o peixe e não se porque riram e, na confusão, chamaram a Neguinha e a apalparam "prá ver se estava machucada". Na confusão de ajuntar testemunhas de crime vieram, ainda, um quadro do milagroso São Jorge, um livro de Caravaca, seis velinhas de caixão e dois bonequinhos iguaizinhos à Lalada e o marido.
Na delegacia, o delegado, um velho muito respeitoso e irmão de opa na igreja, desmaiou quando viu as duas e falou ao desmaiar:
-"Ai, meu Deus, se estas duas abrirem o bico, estou frito!";

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