domingo, 9 de janeiro de 2011

(*) Quando o amor é de menos, nem beijo no cangote...

     Era Boró Mattos, com dois tês e muito Boró para tolerar tanto desaforo. Espinafrou diante de um espelho sujo de cravos espremidos e cocô de mosquito, a distinta raça de Salomão Guedes, só porque a menina Guedes cuspiu quando ele passou. F. de fura-bolo em riste, berrou os últimos impropérios: 
-E não adianta implorar, ajoelhar-se aos meus pés, que sou muito Boró, galã desta e de outras paradas, para aceitar o seu amor. Não a amo, menina Guedes. Só isto!...
E saiu batendo a porta, como se tivesse dito a maior das verdades. E mal pisou na calçada, lá vinha a menina Guedes, rebolando que nem carrinho de pipoca, o que trouxe, por várias vezes o coração do Boró à boca do Boró. E foi mesmo muito Boró que jogou um olhar de cobra morta para aquele objeto do seu bem-querer, coisa que fez, mais uma vez, aquele bem-querer cuspir de quase molhar o bico do sapato do Boró. E, de Boró para Boró:
- Avança, boró, que essa inimizade é só despistar!
E avançou, pé por pé, e assaltou o cangote da menina Guedes com um beijo de estalar. E ganhou de volta um bofetão tão mal encarado e barulhento que o delegado Lulu Cavalinho teve dificuldades de medir, em relatório aos superiores, os efeitos daquele episódio:
-"Um despautério, capitão Lontrina. Só no vento da cacetada, um pé de lobrobô murchou, e sumiu. Não contando ainda, seis pedras do calçamento que voaram só na rodada da menina. E deu mais, o indigitado Boró Mattos rodopiou de aviãozinho que nem menino em época de Natal ao ponto de acertar as asas num velhinho, um tal de Perdigão, que está perdido até o presente momento junto com uma sirigaita espigada lá da Ribeira dos Potós, que ele arrastou no trombalhão. Ainda, o peso do Boró derrubou uma índia morena de gesso da respeitável loja de umbanda Gato Preto, a qual estátua feiticista deu até prá falar esses tais de Isi-fio...hum,hum..., entre outros adventícios do além. E, de Boró em cambulhada, o vidro da vitrina espatifou-se, três árvores de Natal empoeiradas caíram e deram de acender os respectivos pisca-piscas, e até um Papai-noelzinho de plástico perdeu seu tradicional saco.
E tem mais, Boró adernou pela flora adentro, indo esbarrar a sua insolente mão na popa duma raizeira nervosa, uma tal de Bendita que se diz mãe-de-santo e eleita dum espírito ciumento, o tal de vovô-boizinho, a qual Bendita, sentindo-se cortejada por aquela mão boba, disparou a rodar, a ventar e a puxar da cabeça um descarrego e, não tendo mais nada para inventar, pregou um chute venenoso no fim da espinha do infeliz do Boró, que com três berros de Santa Bárbara, São Cosme e São Damião, foi devolvido aos pés da menina Guedes na beira da calçada. E ela foi autoritária:
- Te manca, sem vergonha! Este cangote só pode ser beijado pelo farmacêutico Totó, que é homem de muitos teres de haveres e que já me descobriu desde o São João do ano passado. Te manca, bestalhão!"

(os textos estão transcritos tal como estão no livro).

Nenhum comentário:

Postar um comentário